A Poética Hiperbórea de Oleg Almeida

 

Pequena Resenha Crítica

A Portentosa Poética Neohedônica-Tropical de Oleg Almeida no Diferenciado Livro de Poemas “Memórias dum Hiperbóreo

 

“… A ironia é o meu último refúgio… ”

 Gregório Bacic, in Olhares Plausíveis

 

Por todos os Deuses! A poesia de Oleg Almeida tem uma vertente neohedônica-tropical que arrebata. A lira-delirante de um viajoso-peregrino, por terras do além-longe, onde ele se impregna-clarifica de um lirismo neohedônico que capitula telúrico em terras afro-tupí-davidicas. Será o impossível? Pois é! Hiperbóreo, do título, vem de como os gregos denominavam um povo que segundo eles moravam acima do vento norte. Pois um bielo-russo, o autor, Oleg Almeida comprou o mote e empreendeu viagens feito uma espécie assim muito bem agregada de gregonauta em terras brasilis gerais, tabuleiro-mosaico em que se cantando tudo há.

Memórias-derramas? Devaneios-fugas? Exercícios de libertações? A arte como fuga-tronco? O Parnaso é o lugar que somos-estamos-permanecemos? Que vento varre as hélices da alma quando nos defrontados num descaminho do longe, se não sabemos que lar nos habita e que propriamente lar somos e estamos? Devaneios de sensibilidade. Alimentamo-nos de nossas neuras e as transformamos em versos e pólos rítmicos de versações?

Que Estação Nada é um porto-lei? Remos em ventos: poemas. As aventuras ins/piram versos… Holderlin, o mágico de Hypérion no vestíbulo da prisão em que foi posto e condenado, acusado de loucura, quando exibia o mais alto grau de lucidez: “E no entanto tu brilhas, Sol! Terra sagrada, não cessas de reverdecer, o fluxo das torrentes escorre ainda para o mar, e no calor do meio dia a sombra das folhagens murmura ainda!”. Mares nunca dantes navegados? Por que mares, lares, bares e ares, segue a fluidez louca de Oleg Almeida? É difícil ancorar um navio no espaço, disse a poeta-suicida Ana Cristina César. Qual é a filosofia vivencial de Oleg Almeida? Aí tem poesia. Ai de ti vida errante!

Poemas-crônicas, poemas-romances, retratos raros, poemas-historiais, poemas quadros cênicos, poemas e a paleta do olhar do criador trans/figurado. Que viagem é dar esqueleto estético a versos que ganham molduras em vidas, cores, tintas e panos, sentidos e consistências, a poética-texto que proseia o mar lusco-fusco entre a poesia propriamente dita e as memórias nem sempre tão doces, mas vertentes verdejantes de um ser como que enclausurado numa dor lancinante, quando se purga a escrever o derredor delas, antes, depois, e, pior, dentro delas: eis o livro. Para Holderlin, como para os gregos, um Píndaro, por exemplo, a arte é artesania. É o chamado mechané dos poetas antigos que Oleg faz macadames de idéias-poemas, de situações-conflitos-poesia, de narrações-poéticas que criam fundos, ermos, variações, dimensões que a leitura mergulha, bebe, rende harmonia. A poesia é exigência, diz Saint-John Perse. Pois no caso de Oleg Almeida é exigência de contar, narrar, descrever, arrancar, criar-se ainda assim da memória, verter-se, dar o que pensar em seio, berço, eio; e pinturas com magnífico nuance novidadeiro de punho e cunho clássico.

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“Olhai, ó Senhor, para mim

Com vosso sorriso bondoso e complacente.

Dai-me um pouco de luz olímpica;

Perdoai a vontade insana

De ler o final da história, antes que seja escrito,

De quebrar, com alarde, a casca de noz sagrada

E comer o miolo

De penetrar o impenetrável”

(in, pg 10, Poema Numeral UM)

Essa é a poética de Oleg Almeida talvez neohedonista. Delirante. Delirante? Melhor: assustadoramente poética, viajosa, fora do normal – se é que normal quer dizer alguma coisa – sem títulos; numeradas, como páginas de rostos, capítulos de uma mesma epopéia a criar diários, registros, delações, visões, com/figurações. O molusco tirado da concha em bólides e desafios faz-se homem no escreViver… Hiperbóreo…

E trabalha o verso que uni-(verso), o longe, o perto (o dentro), mais, a chaga do tempo, como se quisesse estar onde não está, e quisesse ser o que não pode ser, ou se quisesse escrever-se para refazer-se e incluir naquilo que lhe foi tirado, talvez o vento-tempo: “O tempo nos mata – Não a pauladas (…) mas à sorrelfa/Com rugas, doenças e cartas de despedida/Pouco a pouco.” O tempo e suas cartas náuticas-poéticas. Navegar/Escrever é preciso, existir não é preciso?  

“O azul foi a cor da infância

Do lépido céu que servia de teto (…)

Dos olhos de minha avó

Das histórias por ela contadas (…)

Foi o azul do menino (…)”

(pg 21, in Verso V)

 

 Assim é Oleg Almeida. Narrador-contador (cantador) que veste a roupa do que pensa, inventa, sente, e isso dói. Escrever é derrubar paredes? O Poema IX é lindo! Fragmento: “No dia em que morreste, meu velho (…)/De capa branca, imaculada, e de sandálias pretas/Que nunca usaras em vida/Tu foste embora/Seguindo o caminho que todos os homens igualaria nos seus direitos/O da eternidade.” (pg. 39). Alexandre Dumas, em suas Memórias, dizia que era um menino entendiado, entendiado até as lágrimas. Quando sua mãe o encontrava assim, chorando de tédio, perguntava-lhe: – E por que é que Dumas está chorando? Então o menino de seis anos respondia: – Dumas está chorando porque tem lágrimas.

Os poemas hiperbóreos são as lágrimas hedônicas-tropicais de Oleg Almeida em peregrinação pelo mundo que re-descobre a cada ver-se? Ei-lo exatamente nu e lacrimal in versus: “Cheguei e, no meio do desespero/Vi todas as coisas, que conhecia desde o berço, ilesas/As flores a recamarem o teu sepulcro eram bonitas/O vinho tomado para coibir os prantos, gostoso/A lua recém-nascida, amarela/Mas tu não vivias/Ou tinhas entrado, talvez, nessas coisas/E nelas te radicarás/Virarás crepúsculos, raios e sons/Integrarás a natureza/Em cujas feições delicadas, daí para a frente/As tuas se encarnariam.” Bravo! Quadro cênico de pura poesia, a mortalha cênica de um olhar sensível-dor. As perdas (as ausências) alimentam sensibilidades lírico-meditativas que soçobram entre rumos, remos, resmas, iras e criações desta ordem. Que pátria é a infância? Que poesia é nossa cara-pátria? As caras e as coragens (e as fugas-devaneios) do mundo:

“O mundo de hoje não se parece com nada (…)

Aliás, eu também nada tenho de grego

Tirante meu hedonismo mal-sucedido

E as questões

Quem sou eu? Donde venho? Aonde vou?!”

(pg. 67 Verso XV)

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Ítalo Calvino dizia: “Entre os valores que gostaria que fossem transferidos para o próximo milênio está principalmente este: o de uma literatura que tome para si o gosto da ordem intelectual e da exatidão, a inteligência da poesia juntamente com a da ciência e da filosofia (…).” Oleg Almeida é um caótico itinerante? Já o dramaturgo e poeta Antonio Miranda diz que toda poesia é impura (…) e instaura-se no caos do qual não pretende se libertar… E sobre o escritor Oleg Almeida, o literato Antonio Miranda se manifesta verdadeiramente profético-poético: “Surpreendente o domínio da língua portuguesa por um poeta eslavo! Degusta as palavras e os sentidos em poesia que linda com a prosa, de forma direta, confessional, sutil mas, ao mesmo tempo, incisiva. Aposto no talento dele.”

Feito um Homero querendo voltar para casa, Oleg Almeida procura o que se pode chamar de seu – entre sangue, suor e criação – de casa (o que se pode chamar de lar?); lar, lugar, estar, ser, origem, raiz, talvez despertencimento – ele mesmo a sua própria casa-lugar/ser, o próprio verbo caminhar (fazer a casa), assim, luz e lágrima – e verso. Zeus ajuda quem cedo se aventura? O tempo o que é? Tempo-palhaço (até no circo das idéias poéticas), ladrão de mulher, ladrão de nós mesmos, acima dos ventos, das peregrinações ilusórias, dos ícaros, quando o próprio farol de Alexandria pode ser apenas um ponto de exclamação acima das nuvens-ventos, indicando idas e vidas como lugares nenhuns, o ser feito vinagre na peregrinação-purgação como alma-andaluz. O lar divino é aquele em que nos deixamos; lastro e rastro, estrelas e trilhas, ilhas e edições de. Vinho, chocolate, recordação, prazer, status paradisíaco de ser-estar-permanecer-continuar! Carpe Diem. E Poesia, claro, porque Oleg Almeida, filosófico e lingüístico, feito um novo Odisseu pós-moderno (e pós tudo?) faz a sua própria diferença: aventurar-se. Eis o repertório no verbo VIVER se encantando no umbral de novas ilíadas vivenciais e parnasos boêmios consagrados a Orfeu. Colocando poemas-viagens no poetar as buscas de si mesmo, hiperbóreo. Escrever é compor a solidão de poesia/Para ter companhia? Ah a dura viagem de existir! Não somos todos Ulisses?

Silas Correa Leite – Santa Itararé das Letras, São Paulo, Brasil, Escritor, Membro da UBE-União Brasileira de Escritores, Teórico da Educação, Jornalista Comunitário, Conselheiro em Direitos Humanos

E-mail: poesilas@terra.com.br

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