Poema Para Mário Bortolotto – Silas Correa Leite

 

Pés Vermelhos

“É sempre muito difícil

Ancorar um navio no espaço”

 Ana Cristina César

 

Para Mário Bortolotto

-Do Paraná para Sampa é questão de uma estrada de tijolos amarelos Os pés vermelhos de um star Mário fazendo arte Na Praça Cimento Armado da Igreja da Consolação Em que putas, mendigos e trombadinhas cheiram velas de umbanda E o teatro prolifera novas vozes, estados cênicos, poemas e orações em banzos etílicos. -Mário é um touro, diz um poeta amigo conterrâneo do Mário Todas as vozes se calam quando uma voz se cala A bala perdida pode ser Bala Juquinha, o sangue no corpo Nada nos bolsos e nas mãos, o ato anticlímax atirado E o artista pés vermelhos agoniza. -São Paulo de tantas afroméricas em pó Latinidade-zen tropical entre corrupções S/A Um enorme Estacionamento Carandiru a self aberto E os mambembes, e o homem-carroça puxando lixo A nóia com fome chora procurando restos de comida no lixão E só acha placas de computadores, kits, chips, teclados encardidos e ratinhos usados. Mário Bortolotto é forte e veio do Paraná Pés vermelhos, portanto, agora na UTI espera o sinal do spot light Para sair do camarim para a vida, entre o sangue cênico do sonho Pois o show dele tem que continuar e ele é o ator principal A estrela do espetáculo em que a esperança é a inteligência da vida.

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 Silas Correa Leite

http://www.portas-lapsos.zip.net

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CAMELOS, Conto de Silas Corrêa Leite

 

C A M E L O S

Pois é, mano, você que é um baita animal racional, de capacete, carcova, gravata, dólma-de-tala, elmo ou turbante, deve estar aí se assuntando com esse deserto de acontecências ao deus-dará, a bem dizer, entre atropelos de idas e vindas aceleradas, nuvens de areia, torres pegando fogo, crianças inocentes explodindo, mulheres grávidas vitimadas, prédios de instituições civis se desmontando, e você aí, cara de boi tonto, deve estar cismando quem é o burro que legitimou um ataque assim, quem é o cavalo que montou o circo bélico, quem é mesmo a besta-fera Número Um com loucuras e irrazões que nos atingem a todos, quando só queremos mesmo é encher a pança de água, rondar milhas & milhas pelaí com um Tuareg cheio de honra, entre os incensos sagrados dos oásis, os sândalos pegajentos de verão, cimitarras e lamentos… Pois é, estamos aqui sonados, no meio dessa briga bem estúpida, sacando esses diferentes camelos de aço, verde-olivas, com suas pencas de armamentos caros, os novamente usados negros de um país distante carregados de fuzis, cantis, refis, binóculos e outros trecos, e que, talvez por um superávit populacional desse outro continente invasor, aqui serão oportunamente queimados na estratégica linha de frente, o chamado Front, entre o grude do óleo díesel e tantos efeitos químicos tácitos, talvez servindo mesmo de meras buchas de canhão até que venham cantando hosanas os seus preparados manos branquelos, pois esses aqui, coitados, dá até dó, afro-americanos, têm mais medo de roncos de aviões que nem identificam mais no apurado dos atropelos, se urinam todos ao soar de soturnos trepidares de metralhas rudes, mal e mal sondando uma granada de mão que, num desvio inédito, num empecilho de enfrentação os aleijem para sempre. Isso tudo mais as armadilhas de percursos de nossos donos árabes, trincheiras de corpos irmanados, todos os invadidos socados de raivas diversas, como futuros guerreiros até a morte para eliminar os ordinários filhos de satã, mais os possíveis sobreviventes do amanhã que serão futuros terroristas treinados pelo ódio, amarrados por elos furtivos de invasões e guerras insanas, e que cedo ou tarde vão lá em outros cantos derrubar mitos, pagar promessas feitas em pranto, vingar, dar o troco com lambuja, atingir torres famosas, minar vaidades doentias, aterrorizar egos varridos de mediocridades sociais, inclusive de um débil mental feito chefe distante que quer atacar nosso ditador, igualzinho a tantos outros vizinhos que paradoxalmente apoiam por interesses outros e que não têm nada a ver com ética, lógica, liberdade, democracia, humanismo… Mais eu sou só um camelo legítimo, ora. O leite de minha fêmea é possante, nossos excrementos servem para alimentar fogos e cozinhar no breu das areias movediças, meu lombo é famoso colo de humanos sábios e turistas curiosos, resisto a graus altíssimos de temperatura, todos da espécie temos pelagem rica, grosso couro caro, somos muito sensíveis e, sabe, fico um jumento de raiva quando, nessa secular vidinha nossa somos surpreendidos com bombas sórdidas, gases perversos, sangue alheio, lágrimas amargas, ou vocês acham que pode haver uma guerra pau a pau de um forte e potente, contra um país entregue à sua sina de ter petróleo puro custando bem menos do que uma gota de água? Pois é, sou o Camelo Rubi e estou aqui, danado de atrevido, pensando essas desaventuras e teimando que um ventríloquo ou mágico ledor de lábios me capte inteiro, ou um, quem sabe, bruxo sem véus, ou anjo poeta, saque logo o que eu quero dizer exatamente aqui, direitinho, pê da vida, com minha cabeça pegando fogo de raiva, meus pés ardendo tropeços, meus olhos faiscando de ódio, enquanto uns carros-camelos vêm xeretear aqui nesse meu habitat, sujando nossos céus com seus camelos voadores carregados de armas brutas, mais a morte que eles registram como assinaturas de imbecis em terras de tantas honras perdidas, tantas esperanças com jugos, tantas humilhações como conquistas sazonais, pilhagens e trincheiras de lutos adquiridos. E como é triste ver irmão lutando contra irmão, por causa de uma caixa-esmola de alimento ruim, enquanto um menino árabe doente chora sangue de tristeza e humilhação, vendo as pessoas que ama sendo compradas pelo estômago, no açodado da falta, no apurado do instinto tribal. E eu posso falar disso, porque o meu é estômago enorme e prodigioso… Mas você que é um camelo-gente aí num ermo qualquer de um continente distante, deve estar curioso se indagando, o que é que um mero camelo em toleima de crédito tem a dizer, que seja mais importante que pronunciamentos oficiais, mais real do que registram as câmeras editando mentiras, ou o que um ser enorme e de clima árido, quase pedrês, quer dizer que valha mais a pena escutar do que um lagarto noturno, uma chuva de meteoros, uma nuvem de areia, um soar da Trombeta do Medo entre fuzilos noturnos, mísseis cirúrgicos que na verdade detonam tudo, de mulheres grávidas a crianças de olhos castanhos carregados de horror?. Sabe, cara, como é triste ser camelo e ver a cara dos homens que estão condenados a lutar em vão, passando silentes em fila indiana por mim, nervosos, carregando neuras e hipocrisias com ufanismos mascarados, pois não há glória na morte, não há vitória em um potente canto invadir um pequeno rincão árido e ainda assim cantar vitória, com suas estrelas cheias de sangue, cheias de posses amorais, de lucros insanos, de conquistas injustas, de muito ouro e pouco pão. Mas eu sou só um Camelo. E fico vendo passar a caravana de guerreiros de terceira categoria, os rejeitados sociais (escolhidos a dedo por serem maioria inútil) os que virão queimar no deserto, os que trazem a dona morte como sina e o destino da destruição. E como camelo dou testemunho de que vão trocar um louco nativo por um louco exótico e seus asseclas psicóticos, um, aliás, tão débil mental quanto o outro, e depois que trocarem de donos as posses, tudo será como está, como ainda o é no Afeganistão, e como será ainda por séculos, desde o primeiro Abraão, pois, claro, no capitalismo amoral, os ricos continuarão cada vez mais ricos, e os pobres continuarão pobres como cachorros sarnentos, além de oportunos aleijados excluídos sociais. Quantos poderosos, de potentados de seculares oligarquias, dos que financiaram essa guerra, do que diabólicamente atentaram contra si mesmos em nome de mentirosos fanatismos alheios- sempre visando lucro e posse com alto poder bélico – aqui em nosso meio tão primitivo e primário, quase ainda a vigorar o Código de Hamurabi, não teriam também as mãos cortados, por serem ladrões de alguma forma, de alguma maneira, de algum jeito, como bandidos violadores da verdade, dos sonhos, das esperanças? Quantos desses empresários amigos do alheio, viciados em máfias e quadrilhas de todos os tipos, que ganharam dinheiro fabricando e promovendo mísseis com alta tecnologia que nos vão destruir, e depois, acreditem – quem é o bicho? – ainda vão contar vantagens de nos querer cobrar caro pela reconstrução de tudo o que por interesses escusos destruíram? Que democracia é essa? Vocês acreditam isso? Ora, então quem são vocês? Essas potências que nos atacam como hienas loucas, entre unidos chacais da pior espécie, já exploraram nativos de suas plagas, já exploraram negros oriundos de países afros, já exploraram imigrantes de êxodus antigos e agora, ainda insanos, sem moral, querem mandar no mundo, se mal controlam seus racismos históricos, seus perdidos filhotes viciados em drogas que os fazem acreditar em coisas que não existem, em uma democracia dúbia de só dois suspeitos partidos podres que se revezam no poder por força do open-doping da mídia atrelada, quando esses futuros pobres marines (ou incompetentes agentes loucos da Cia) se envolverão em infrações, em crimes, e assim também por isso mesmo, estarão minados em uma básica sensibilidade crível, pois seus líderes serão ignóbeis, suas bolsas de valores são antros, numa imbecilizarão generalizada em nome de um Deus que deve ser cego ou apenas constar como ícone de uma mentira sem precedentes, no pior império que a história conheceu? Sim, sou um Camelo. Mas tenho a minha amiga águia que me faz ver o que não vejo, tenho os gafanhotos que me trazem noticias ruins desses cantos sujos de chaminés e cruzes coniventes, tenho a areia do deserto que vai do Saara até os automóveis de Roma, ou das nuvens que me trazem céus sem ozônio e com chuvas ácidas, tudo por culpa de desastres, tragédias, guerras antigas, e, principalmente com outros camelos bisonhos que atacam uns aos outros, tentando esgotar estoque de armas para vencer o prazo (e o seguro), engordando cofres sujos de grandes parques industriais que como matilhas de lobos bizarros fomentam o horror em alta tecnologia, enquanto milhões morrem de fome, milhões sujam a água berço da vida, milhões têm medo, muito medo, e jogam jogos horríveis, mecanizados, impotentes para o raciocínio. Mas, eu sou só um camelo. Se vocês acham que pensam um pouquinho, o quê é que vocês estão fazendo jogando seus jogos sujos, treinando seus filhos em consumismos idiotizados, como gado marcado num curral de falas venerações e conquistas ordinárias, mais passaportes de aparências encardidas?… Sim, daqui a pouco uma bala estrangeira pode me atingir, posso ser boa mira para matar a fome de um clã, ou mesmo um repórter desconfiar de minha baba decodificada, de meu andarilhar pesquisador entre tropas e tanques, mas, você aí, em algum lugar desse Planeta Água, vai deixar seu filhote captar ao vivo, a cores e em tempo real esse espetáculo de tragédia anunciada, aonde um circo de palhaços monta uma mudança falsa que não mudará nada, mas todos, muitos, ganharão com isso, espetaculares lucros enormes, desde os que morreram e não vão significar nada em estatísticas pois são negros ou mestiços, ou quando o ditador for embora e a miséria ganhar o mesmo rótulo de uma periferia sociedade anônima como há nos quintais desse invasor que aqui arrota mentiras com peso de orquestração maquiavélica para enganar trouxas e amebas? O que você vai fazer, baby? Vai deitar e dormir em paz? Não há consciência no progresso do mundo judaico-cristão? Alá tem poder! Eu sou um camelo, mas eu tenho um sonho. Sim, sonho um mundo em que todos possam viver em paz. Sem fronteiras também para as pétalas, para o mel e o maná. O que você vai fazer do que você sabe? Ou você não sabe, é manipulado, na real você é mais um ignorante com grife? Pense nisso. E pode ficar por aí mesmo, que eu vou ganhar os desertos distantes, fugindo de amarras, pois eu sou um camelo capenga mas não sou crocodilo da margem esquerda do Nilo. E você o que é? Um rato urbano? Uma barata tonta nos esgotos sociais? Um camelo idiota com uma mochila da Nike nas costas, uma arma calibre grosso nas fuças, ou mesmo pregado numa senzala-tevê mostrando horror e você falando de amor aos quatro ventos, como se a prática fosse uma e a teoria outra? Santa ignorância. Fique aí seu camelo engravatado, com seu diploma de nada e ninguém, seu curso de pós-graduação, sua amante ruiva, seu tecido adiposo de gordura saturada de mambembe bípede comedor de carniça, com seu Deus de veneração pecadora, sua mortalha de vaidade, sua carcova-cruz.

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Silas Corrêa Leite http://www.itarare.com.br/silas.htm ROMANCE Ele Está No Meio de Nós no site http://www.itarare.com.br E-mail: poesilas@terra.com.br Conto do livro O HOMEM QUE VIROIU CERVEJA Giz Editorial-SP Prêmio Valdeck Almeida de Jesus, Salvador, Bahia, 2009

SERVIDÃO – Letra de Rock/Poema de Silas Correa Leite

 

Letra de Rock

(Quem Se Habilita a Musicar?)

Servidão

 A servidão voluntária dos grupos Tribais, Sexuais, Sociais Cabeças vazias arrotando culpas Sintomas de subcretinos insensíveis quase Canibais Todos submissos, pífios, incultos Amorais, Animais, Consensuais Mentes vagando no nada absoluto Cotas de sem cérebro, hipócritas, janotas Boçais A servidão de condomínios insepultos Letais, Fecais, Presenciais Tribos, grupos, panelas, totens, posudos Chacais A solidão voluntária da falta de escrúpulos A solidão voluntária da falta de escrúpulos A solidão voluntária da falta de escrúpulos

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Letra de Rock/Poema: Silas Correa Leite E-mail: poesilas@terra.com.br http://www.itarare.com.br/silas.htm