CAMELO – Texto de Silas Corrêa Leite, Resenha Crítica de Teresinha de OLiveira Ledo Kersch

 

Resenha Crítica:

A Perspectiva de um Camelo ao Olhar para o Oriente

LEITE, Silas Corrêa. Camelo. In: O homem que virou cerveja. São Paulo: Giz Editorial, 2009.

Silas Corrêa Leite é natural de Itararé, São Paulo, e já publicou textos críticos, sátiras, ensaios, crônicas, contos, poemas, entre outros escritos, em aproximadamente 500 sites brasileiros e estrangeiros. Escreveu O rinoceronte de Clarice, um livro interativo que foi objeto de diversos estudos acadêmicos, dentre eles uma tese de doutorado na Universidade Federal de Alagoas. São de sua autoria os livros Porta-Lapsos, de poemas; e Campo de trigo com corvos, de contos. O texto Camelo foi publicado inicialmente no site do Jornal O Estado de São Paulo e posteriormente passou a integrar a coletânea de crônicas intitulada O homem que virou cerveja, publicada em São Paulo pela Giz Editorial, em 2009. O referido livro é resultado da premiação do autor em primeiro lugar no “Concurso Valdeck Almeida de Jesus”. A crônica é narrada em primeira pessoa, no tempo presente, por um camelo, narrador-personagem do universo oriental que dialoga com um provável leitor ocidental, provocando-o para que este saia de sua passividade diante dos fatos que o cercam e assuma uma atitude mais crítica, sobretudo em relação à constante violência que assola o planeta e às recorrentes guerras no Oriente, muitas destas resultantes de ataques oriundos do Ocidente. O texto surpreende desde o início, a começar por este narrador inusitado, que observa o que acontece ao seu redor e revolta-se contra as injustiças cometidas pelos seres humanos, dos quais se esperaria certa racionalidade. Entretanto, esta vem justamente do camelo, através da reflexão e análise da realidade e da manifestação de suas ideias. Já no primeiro parágrafo, o leitor é convidado a pensar sobre as vítimas inocentes das guerras, principalmente nas constantes lutas travadas no Oriente, muitas destas protagonizadas ou apoiadas por líderes políticos ocidentais: Pois é, mano, você que é um baita animal racional, de capacete, carcova, gravata, dólmã-de-tala, elmo ou turbante, deve estar aí se assuntando com esse deserto de acontecências ao deus-dará, a bem dizer, entre atropelos de idas e vindas aceleradas, nuvens de areia, torres pegando fogo, crianças inocentes explodindo, mulheres grávidas vitimadas, prédios de instituições civis se desmontando […]. (p. 39) Este camelo-narrador conduz o leitor à visão dos horrores provocados pelas guerras, realizando sua travessia pelo espaço desértico e descrevendo o que observa. Segundo Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, em seu Dicionário de símbolos (1996), o camelo, por ser uma montaria que auxilia na travessia do deserto, conduzindo o homem de um oásis a outro, possibilita o alcance do centro oculto, da Essência divina. Nessa perspectiva, o camelo-narrador cumpre sua função, pois desperta a sensibilidade dos leitores para situações vivenciadas por inúmeros seres humanos, devido à guerra, e mostra que, ao aceitarem passivamente tais circunstâncias, não deixam de compactuar com esta realidade. Ao despertar para o sofrimento alheio e se interessar por ele, de alguma forma o leitor aproxima-se da Essência divina. Nesse sentido, há um convite realizado pelo narrador para o leitor, sobretudo o ocidental, a fim de que este saia de seu lugar confortável de observador e entre em contato com a alteridade, com o Outro, respeitando seus valores e crenças e não se colocando como alguém superior, detentor das verdades absolutas, atitude que muitas vezes justifica atos violentos, como as guerras. Considerando as contribuições teóricas de Lévi-Strauss acerca do etnocentrismo, em textos como Raça e História (1952), pode-se dizer que o camelo propõe que o leitor abandone uma visão etnocêntrica, que enxerga o outro a partir de seus próprios valores, e adote uma postura de respeito à diversidade. As descrições realizadas pelo camelo contam com o auxílio de dois outros animais: a águia e o gafanhoto, que lhes relatam acontecimentos de lugares por onde ele não passa. Se recorrermos mais uma vez ao Dicionário de símbolos (1996), observaremos que a águia constitui o mensageiro da mais alta divindade, ao passo que o gafanhoto tem um simbolismo ligado a pragas e devastações. Esta dualidade também é uma característica do próprio camelo-narrador. Este, assim como o gafanhoto, tem os pés firmes num chão inóspito. Além disso, encontra-se diante de uma realidade que o entristece e revolta-o. No entanto, apesar de tudo, assim como a águia, consegue olhar para o alto e sonhar com “um mundo em que todos possam viver em paz”. Entre suas reflexões, o camelo deseja avidamente ganhar voz através de um “ventríloquo”, “mágico ledor de lábios”, “bruxo sem véus” ou mesmo de um “anjo poeta”. Tal desejo se concretiza, pois o camelo torna-se o narrador de sua história na crônica escrita por Silas Corrêa Leite. O escritor é o “bruxo sem véus” e o “anjo poeta” que possibilita a escritura e a materialização do pensamento do camelo. Há uma fronteira tênue, em que se misturam o narrador ficcional camelo e o autor da crônica, também poeta, Silas Corrêa Leite. As vozes do cronista e do narrador misturam-se, realizando uma escritura bivocal, por vezes ácida, por vezes tomada por profundo lirismo. No final do conto, há uma provocação ao leitor: “Fique aí, seu camelo engravatado”. Ao ser chamado de camelo e convidado a permanecer onde está, o leitor é convidado a pensar no quanto os seres humanos têm demonstrado menos racionalidade que os animais… Percebe-se, dessa forma, que o cronista, a partir do relato do cotidiano de um camelo no deserto, capta a essência do sofrimento humano causado pela violência da guerra, de forma singular e instigante, de maneira a levar o leitor a uma reflexão mais profunda sobre esta problemática e assumir uma postura mais crítica e menos passiva diante dos fatos.

Teresinha de Oliveira Ledo Kersch

(Mestranda em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP)

Infâncias, Poema de Silas Correa Leite

O autor Silas Correa Leite e sobrinha-neta de Itapeva_SP

Poema Escrito em JEI – EMEF José de Alcântara Machado Filho, Real Parque Morumbi

INFÃNCIAS

Que infância não tive? Que infância não me deram? Que infância me tiraram? Hoje, adultizado, poeta mal crescido Dizem que às vezes pareço meio criança perdido Querendo escrever o que não vivi A criança de hoje na creche No condomínio fechado; o dia inteiro na escola E cursos de teclado, inglês, informática, lan-house, balé Que infância na verdade não é? Das crianças das ruas do interior Tiraram a terra, as árvores, as ruas, os amigos, os jogos lúdicos E deram tevês, parabólicas, videogames, clubes de campo, gps A infância propriamente dita já despertencida Que infância é essa assim tão desaprendida? A criança precocemente na escola A criança entre quatro paredes o tempo todo A criança com estoques de presenças esgotados A criança que mal vive e que mal que sabe porque chora Com a natureza toda acontecendo num mundo aberto e real lá fora Balão, forfé, horizontes, brincadeiras, nuvens e carruagens de abóboras A infância pobre que eu menino não tive por cedo ter que trabalhar A infância que poderia ser rica se eu aprendesse o sonho de brincar De criar, subir e descer ladeiras, aventuras, criancices, contentezas Agora nenhuma criança esperta nem brincando na chuva tem mais Adultizado eu mesmo virei meio criança-poeta a sobreviver Virei criança crescida querendo de novo a infância no escrever Mas, e as crianças urbanas de hoje Que nunca crianças verdadeiramente saberão ser? Hoje, mal adultizadas, as crianças Querem ser o que não sabem ser Querem ser o que não podem ser Querem ser o que não tiveram como aprender… A escola não ensina a criança a ser criança no crescer Portanto, a escola não ensinará a criança a ser Aluno, adolescente, jovem, ser humano, cidadão consciente Nem terão o aprendizado de contentezas e prazeiranças de humana gente Assim, nunca existirão a vida intensamente!

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 Poeta Prof. Silas Correa Leite E-mail: poesilas@terra.com.br Blogue premiado do UOL: http://www.portas-lapsos.zip.net Teórico da Educação, Especialista em Educação, Jornalista Comunitário, Conselheiro em Direitos Humanos (SP), e Escritor, poeta, crítico literário e ficcionista Prêmio Lygia Fagundes Telles Para professor Escritor Ex-Coordenador de Pesquisas da FAPESP-USP em Culturas Juvenis Autor de Porta-Lapsos, Poemas, e Campo de Trigo Com Corvos, Contos, a venda no site http://www.livrariaucltura.com.br Poeminho da Série “Lecionar é a Nossa Melhor Rebeldia”

ROMANCE SOL NEGRO – Estupendo Clássico de Augusto Ferraz

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Pequena Resenha Crítica (Primeiro Rascunho)

As Clarificações Literárias do Estupendo Livro SOL NEGRO de Augusto Ferraz

“A ausência de uma coisa não é somente isso, não é apenas uma falta principal, é uma subversão de todo o resto, um estado novo impossível de prever no antigo”

(Marcel Proust)

O Livro SOL NEGRO, de Augusto Ferraz (Nossa Livraria Editora, 2008, Recife-PE), é um belíssimo e surpreendente entrecortado de interessantes intertextos (e paradoxal a partir do nome, inclusive), entre contos-poemas, contos-narrativas, contos-despojos, contos-arrebentações (e arrebatações?), contos reflexões (algo assustadores, quase todas), feito devaneios literários de alto estilo. Como classificar uma bela loucura criativa de tal obra-livro? As narrações extremamente ousadas e criativas do autor de SOL NEGRO, é a primeira coisa que clama atenção, logo cativa, eleva, faz o leitor pensar com pose sobre o que lê (e se sentir privilegiado de estar lendo literatura de alto nível). A intensidade do que se lê na intertextualidade que não se nomina, mas evoca sentimentos, sensibilidades e embebeda. Prosa poética de grosso calibre, por assim dizer. Há em todo o Sol Negro de Augusto Ferraz uma espécie de neoexpressionismo, tudo muito denso, as cantagonias, as cisternas íntimas muito bem revisitadas pelo autor. Há cantos, êxtases, epifanias, prosas aqui e ali apocalípticas, homens e bichos, sintonias e ceifas, searas e intimidades, sítios e situações. A morte, a vida, o caos, o urbano o periférico, o rural, o encantado. Tudo iluminado com muita maestria poética no narrar. A enumeração sequencial dos textos (partículas) sem nome, datando cada texto-conto (?), aqui e ali um susto, ou um apaziguamento, ou um “salmar” de algum modo que seja, entre uma surpresa, um susto, um gosto de raiz, de terra ou de sangue, tal a qualidade de mão cheia. Já pensou? Tardes e manhãs. Iluminuras. Mendigos, mortos, chuvas, desnaturezas. Oceano, cemitério, borboleta. Vidas humanas viçadas. Augusto Ferraz clarifica a escurez da vida, dos seres, dos sobreviventes, dos miseráveis. Bestas, dragões, tudo indo de roldão na sua pena criativa em altos vôos.

“Abro os olhos no meio da noite e o olho do tempo fecha-se sobre mim. O caos é a brasa da fogueira que se apaga(…). Fecho os olhos no seio da tempestade e contemplo a noite que há em mim.”

 Bravo! Lindeza. Ah as prazeiranças e contentezas do artista letral, como dão prosa poética com asas… O SOL NEGRO é uma espécie de salvação da lavoura literária nesses tempos realmente muito pouco criativos, entre modismos, panelas e núcleos de abandonos e desprezos entre os salvos do incêndio e os que se agrupam em sulistas nichos midiáticos pouco férteis. In, A Necessidade da Arte, Ernest Fischer nos diz “O Homem sempre se verá como parte da uma realidade infinita que o circunda, e sempre se achará em luta contra ela(…). A magia da arte está nesse processo de criação, mostrando a realidade como possível de ser transformada, dominada, tornada brinquedo(…). A arte como um processo de identificação(…). Somos um pouco criadores de obras que estendem nossos horizontes e nos eleva acima da superfície a que estamos pregados(…)”. Augusto Ferraz é exatamente isso. Em algarismo romanos os contos (que sejam) surgem clarificando idéias, momentos, situações, muito além de limites (porque ousa a imaginação e o conhecimento do oficio de escrever), recuperando quadros cênicos.

“A tua palavra faz os mortos vestirem a fantasia da vida (in, pg 36)/ Palavras luzem como um sonho pendurado na parede da noite (pg 64)/ O flagelo santificado no prazer da carne (pg 97)/ Ela não resiste e embala-me a insônia como que acendo as estrelas nos cantos escuros do sol (pg 129)/ Um anjinho de lama, descido do purgatório ficava lá dentro das tocas dos guaiamuns (pg 153)/ A arvore que és, nasceu no meu peito(pg 162)”.

Todas as escritas de Augusto Ferraz são lindas, porque bem criadas, sentidas, revivificadas na sua bagagem de vida, de leitura, de seu sentir com a imaginação, de seu pensar empa-lavrando. Quem sabe se, a terra não é apenas um mero aterro sanitário do cosmos, onde aqui podem estar depositados todos os vermes? Sim, é preciso clarificar a vida bela e a vida suja, a beleza e a tristice, a dor e o amor, o humor e o ódio, as disparidades e as coincidências, os paradoxos e as matizes, o que há de poder ser aproveitável na arte, na prosa, prós e contras enfim. E isso está na ótica e na mão do artista escrevendo seu tempo, no amor e na dor. Nínives e Gomorras. Há tambem no entremeio das narrativas um de-quê meio bíblico. A sintonia divinal no conto/canto CV é linda: “Essa noite, dormi como um anjo. Sonhei que te amava. No sonho, eu vivia. Na verdade a vida é um sonho, e se eu sonhava é porque te amava. Amar-te não é um sonho, é a realidade. Louco de amor, o amor em ti enlouquecia, enquanto eu sonhava, o anjo me dormia” Ah as entranhas do homem (Nelly Novaes Coelho). Lendo Augusto Ferraz de alguma maneira enloucresço. Também pudera, com essas contações mexendo com os “sagrados” laços dos entes, mitos, abóbodas, céus, mistérios, ramificações… terra chã… Sim, mexer com tantas loucuras-contações ao mesmo tempo é um vespeiro. Augusto Ferraz abre as portas da mente, do céu, do Self. E destila as escritas. Na casa do pai há muitas erratas? SOL NEGRO não perdoa nadas e ninguéns. E se deixa sangrar com tantas tintas.

Disse Kateb Yacine:

“É preciso que nosso sangue se inflame E que nos incendiemos Para que os espectadores se comovam E o mundo abra enfim os olhos Não sobre nossos desejos Mas sobre as chagas dos sobreviventes”

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“Um dos traços essenciais da literatura na sociedade dita pós-moderna, consiste na rarefação dos gêneros, na interpenetração dos modos, na mistura arbitrária de espécies e modelos literários, numa constante e ousada intertessitura das formas (…)” disse Hildeberto Barbosa Filho, no próprio Prefácio do Livro Sol Negro, “Raro Encontro da Poética com a Beleza”. Augusto Ferraz na verdade introspectou um mundo louco, um mundo meio Dublin, vidas do norte, um mundo irado em suas evocações, mas um catado e entrecortado mundo literal mesmo todo seu. O homem é o destempero de Deus na “herrança” da criação? Ora, sob a ótica de Darwin, quem mandaria Deus pentear macacos? Para um artista de peso, viver não é só abanar o rabo. Há que se registrar as acontecências. Tudo pode ser ou não ser. Eis questão. Ler “SOL NEGRO” de Augusto Ferraz é fazer um mosaico que está na prestação de prós e contras. Escrever é colocar luz nas bocas dos mistérios desses brasis em recantos e rebentos de palhoças gerais… Literalmente, sem tirar e nem pôr, Augusto Ferraz escreve loucuras santas pelas linhas das tortuosas vidas, arrebentando conceitos estruturais de narrativas padrões. Um Augusto Ferraz gauche? Bingo. Ou, quero dizer, eureka. Augusto Ferraz SOL NEGRO fez um puta livraço. A vida está nua e crua, escancarada. E ainda assim poetizada no que há de mais belo e cheio de ternura e encanto. Acerta em quase tudo, só fugindo das regras que nomeassem o próprio criar diferenciado. Afinal, nem toda escrita sem uniforme são oráculos.

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 Silas Correa Leite, Santa Itararé das Letras, São Paulo Teórico da Educação, Conselheiro em Direitos Humanos, Jornalista Comunitário, Poeta, Contista, Resenhista, Ensaista e Crítico. Autor de Porta-Lapsos, Poemas, e Campo de Trigo Contos (finalista do Prêmio Telecom, Portugal), a venda no site: http://www.livrariacultura.com.br E-mail para contatos: poesilas@terra.com.br Blogue premiado do UOL: http://www.portas-lapsos.zip.net

ROMANCE, A Menina Que Roubava Livros, Resenha Crítica de Silas Correa Leite

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Pequena Resenha Crítica (Primeiro Rascunho)

 Estupendo Clássico “A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS” de Markus Zusak

“Nunca encontrarás a vida que procuras (…)

Os deuses criaram os homens mas estabeleceram para eles a morte e guardaram a vida para si(…)”

(Epopéia de Gilgamés/Mesopotâmia, 2.750 a.C.)

“Os seres humanos me assombram”, diz Markus Zusak às páginas 478 da estupenda obra clássica “A Menina Que Roubava Livros”, best-selers que, certamente é um dos melhores livros escritos nos últimos dez anos no mundo, lançado no Brasil pela Editora Intrínseca, 2007. O livro é isso tudo o que dizem dele, pode acreditar e botar fé. Quem o leu não passou incólume por ele; ficou com a alma pesada pelo volume de humanismo e falta de, é claro. O livro, aliás, é tudo isso o que de si próprio diz: assombrado em todos os sentidos. Aliás, a “Morte” contando a história toda é um achado de alta criação do fervoroso autor. E, diz, ele mesmo: Quando a morte conta uma história, você tem que parar para ler. Entrei na leitura desconfiado, e, confesso, saí bem descompensado. Confesso que chorei. A sensibilidade atiçada expropria o fogo de si mesma. Por diversas vezes, lendo o livro em algumas dias, surpreso, aturdido, marcado, levando no meu lado sentidor pelo gume da ficção contundente e aqui e ali aterradora, parei, senti, pensei, sangrei. E durante a louca e varrida leitura pesada escrevi artigos, contos, poemas, ensaios, letras de rocks e blues. Já pensou que respigar? Literalmete tocado, mais, atingido. Acusei o golpe do verbo ler em seu mais potencializado vetor. Não foi fácil me cortar para pelo menos tentar sair inteiro. Viver vale a pena? Ou a morte é um leve preço a pagar, há várias mortes na morte? Só um ano depois que literalmente larguei o bendito livro que se impregnou em mim; só dando um distanciamento do que ele visceralmente despencou em mim e sobre mim, foi que resolvi pincelar essas mal-acabadas linhas a respeito. Só agora finalmente consegui coragem-suporte para aqui estar depauperado ainda; para escrevinhar esse depoimento-rascunho ainda vibracional (de alguma maneira) de minha leitura também bem inexplicavelmente assombrada. Será o impossível? Sim, caras pálidas, um novo clássico da moderna (e pós-pós-moderna) literatura contemporânea, que, sem ofender, é sim, um baita best-selers do mais alto gabarito literário. Bem escrito, bem delineado no conjunto, com estrutura e fibra, narrativa sedutora, apaixonante, mesmo quando choca ou evoca episódios entre arrebatadores e pragmáticos. Você garra a ler, entra de sola na contação contundente (humana?), bebe a história, sorve, sangra, é levado por ela, se incorpora, descobre afinidades, toca céus e infernos, quando vê, quer, como naquela baladinha meio brega de antigamente, parar o mundo e descer, apear, como se diz lá em Itararé. Isso. É um trabalho literário de peso, dez vezes melhor do que os caçadores de pipas pelaí. Somos pegos ao pé da letra pela palavra, e acabamos assim também assombrados pelo romance retumbante como um todo. Aliás, você literalmente “Vê” um filme (que se nos passa pela tela da cabeça pensante no ritmo) enquanto lê o livraço e se sacode de alguma forma com a leção. “O pensamento é o espírito do tempo”, diz Pedro Maciel (In, Como Deixei de Ser Deus, Topbooks, 2009). Pois o autor Markus Zusak coloca a segunda guerra mundial de pano de fundo da história o tempo todo, trabalha com o horror de tantas vidas destroçadas, a própria morte sendo louvada a contar a sua sina, o estertor da morte, a poesia que há na morte, a ótica perenal da morte narradora. Só lendo pra crer. A morte contadora acima e sobre todas as coisas. Não é sempre assim? Ah a vida real… Dó. Horror. Vidas secas. A personagem principal que é o básico eixo-fluxo da obra encantadora também por isso mesmo, é LIESEL MEMINGER; daquelas personagens que encarnam no espírito ledor e bota você para dentro de você, correndo atrás de si mesmo, feito imagem e semelhança da pureza no inferno da vida arrebentando. A Ceifadora na Rua Himmel, área pobre de Molching, Alemanha, o “Manual do Coveiro” (santo Deus!), o nazismo hediondo, os judeus despossuídos, as caras expostas de todos os seres, quase seres, subseres. A vida-covas. E o amigo de LIESEL, Rudy Steiner, então? Chocante. Um livro que dará um épico no império do cinema, e levará milhões a chorarem lágrimas de sangue do céu de cada um; de cada alma tomada pela arte-criação de Markus Zusak. Quem leu Humberto Eco, Ítalo Calvino, Paul Auster, há de adorar ler A Menina Que Roubava Livros perseguida pela morte, driblando-a, ilustrando-a, vivenciando-a e sobrevivendo. Como é que pode? Ah o que a vida faz da vida, o que o homem faz ao homem, o que a guerra faz do espírito sobrevivencial dos vilipendiados. Inspiração, piração, imaginação, envergadura de. O pai acordeonista com um coração de ouro e uma alma de veludo. A mãe aparentemente seca, louca varrida, fechada em bravezas. O hóspede soterrado em traumas no porão da indulgências possíveis. A vizinhança e suas capitulações. As ruas da infância, as crianças em tempos de medo coletivo, medo adultizado. A morte sombreando tudo, toques de recolher, bombardeios, o autor destilando os retratos de um tempo de dilaceramento da espécie humana, como um documentário de vidas infelizes, rueiras, puras, sob os escombros de remorsos e monturos da história em carne viva. Ler o livro e nunca esquecê-lo. O espírito das trevas rondando. Ficando o estigma de relê-lo para exorcizar nossos próprios fantasmas historiais. Compre o livro se não tiver. Leia-o mais de uma vez. Vá em busca de resíduos da alma humana nas trevas de um tempo aterrador. Chorei com LIESEL sonhando o livro-vida, tentando roubá-la para pertencê-la de si mesma despojada de mãe, irmão, esperança, humanismos. Sobrevivência aterradora. Chore com a menina LIESEL roubando um livro-vida-a-mais (passagem possível). Seja essa vida. Seja esse livro. Essa obra sangrou meu coração transido, vida-livro de sentidor que ainda acredita na arte como libertação. Ai de mim. Um dos melhores livros que li-vi-vivi em toda a moinha vida de rato de sebo. E a morte contando… tirando de letra, na metalingüística aqui e ali como estilo, livro falando de livros. O talento do autor, lidando com a carneviva (carnevida) da história. Um romance e tanto. A morte não é só adubo. Sim, meus irmãos, viver não é só abanar o rabo. A guerra produz monstros e tem seqüelas. A finitude e o temor da vida exangue, frente à morte narradora. Foi instigada a minha sensibilidade, o pensamento, a abstração-coisa, e eu sofri-ler, curtir, amei ler A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS. Pela sobrevivência dela, reação dela, a vida entre paredes, as relações de abrigo e destratações. A vida terrível numa vida real romanceada. Perdas. Sonhos. Pinturas de almas humanas. Humanas? Confronto. O sentido da existência é não ter sentido algum? Há sangue na neve muito além de Stalingrado. Nas páginas de A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS os olhos da espécie humana orbitam. O horror da inventada verdade inventariada é um testemunho letral do que não cabe em nós, tocados que somos pela arte, e então explicitam as vísceras expostas do mundo em assombro pela ótica de A Menina Que Roubava Livros. Não foi fácil tentar chegar inteiro ao fim, se segurando em fragmentos, parágrafos, poesias e dor. Valeu a pena ter vivido até agora para ler esse clássico. Ah, falando sério, não tive coragem-calço para citar aqui e ali algum trecho da obra-vida, com medo de expropriação; de tirar do leitor o íntimo deleite de somatizar tudo na sua própria leitura de vidas. Saibam merecer-se por si mesmos. A vida e a alma dos brutos. Bravo!

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Silas Correa Leite, Santa Itararé das Letras, Novembro 2009 Jornalista Comunitário, Teórico e Especialista da Educação, Conselheiro em Direitos Humanos, pós-graduado em Literatura e Arte na Comunicação (ECA/USP) Site: http://www.portas-lapsos.zip.net E-mail: poesilas@terra.com.br Autor de Porta-Lapsos, Poemas, Campo de Trigo Com Corvos, Contos, O Homem que Virou Cerveja (Crônicas).

Perfil, Entre/Vistas Silas Correa Leite

PERFIL – Silas Correa Leite

Silas Correa Leite, de Itararé-SP, Teórico da Educação, Jornalista Comunitário e Conselheiro em Direitos Humanos, é Escritor, Poeta, Ficcionista e Ensaísta, Promotor Cultural, que começou a escrever aos 16 anos no Jornal O Guarani, de Itararé-SP. Hoje colabora com quase 500 sites, alguns importantes, alguns internacionais, consta em mais de 100 antologias literárias de renome, têm importantes prêmios como poeta e ficcionista, até no exterior, é autor dos livros “Porta-Lapsos”, Poemas, e “Campo de Trigo Com Corvos”, Contos, que foi finalista do prêmio Telecom de Portugal, além de autor do primeiro livro interativo da rede mundial de computadores, o e-book “O Rinoceronte de Clarice”, onze contos fantásticos, cada conto com três finais, que virou tese de mestrado e tese de doutorado, e que foi divulgado na mídia como Folha, Estadão, Diário, Revista Época, Correio do Brasil, entre outros, e também no Programa Metrópolis, TV Cultura de São Paulo, Rede 21, Programa Na Berlinda e Momento Cultural, Rede Band, Márcia Peltier. Site do autor: http://www.itarare.com.br/silas.htm ou blogue: http://www.portas-lapsos.zip.net – escolhido pelo UOL como um dos dez melhores em 2008.

Entre-VISTAS:

-Dia 19 DE Agosto de 2009, que presente você se daria para os seus 57 anos?

Pelo menos mais 57 anos, bebemorando minha terra-mãe, Santa Itararé das Letras, minha Familia Musical (eu sou só três notas, Si…lás…) e minha musa-vítima Rosangela. Viver não é fácil. Porque viver é difícil eu me fiz poeta, andorinha sem breque, porque sei que quando “viajar fora do cominado”, vão colocar de epitáfio no meu túmulo “Silascô”. Viver é um pacote maravilhoso. Mas somos nós quem colocamos as etiquetas letrais, sonoras, espirituais, boêmicas. Eu, assim, como a vida não me deu limão, fiz limonada de lágrimas e literalmente tirei de letra.

Itararé, em três tempos: o que lhe dá tristeza, saudade e alegria?

Os contrastes sociais, a Itararé de quando eu amava os Beatles e Tonico & Tinoco, as balhurentas contentezas do meu povo e sua fauna notívaga pela própria natureza.

Uma rua da cidade: A Rua XV de Novembro, do Bar do Calixtrato, da Praça Coronel Jordão, do Clube Atlético Fronteira, da Livraria do Jorge Chuéri, da Igreja Presbiteriana, da casa do Paulo Rolim Correa, do cacau quebrado (paralelepípedos).

Um Itarareense-Andorinha de boa cepa: O Mestre Jorge Chuéri, o Melhor Itarareense da Centenária Itararé. Congrega o espírito e a alma de um maravilhoso “Ser Itarareense” e um intenso e alumbrado “viver Itararé”.

Um Itarareense da gema: Jorge Chuéri ainda e sempre.

Dando a sexta-feira por finda, um fim de semana perfeito: Bar do Chico (ex Biribas Blues Bar), Dom Cremona, kibe no espeto no Rio da Vaca, e abraçar minha mãe Eugênia porque quem tem uma mãe como ela não tem medo.

Vale abaixo ou serra acima? Dentro do Coração de Itararé, meu coração…

A mais bonita paisagem de Itararé: A cidade por si mesma, cacau quebrado, e a sua criativa gente alvissareira e mais maior de grande.

Um sábado de chuva: Preguiça, cama, cerveja, Caetano Veloso, Fernando Pessoa, Elis Regina, Saramago, mpb, jazz, blues, Bethoven, poesia, queijos.

Um domingo de sol: Sair fazer o Cooper, ler jornal, comer churrasco, ai que preguiça, um bom livro e as boas companhias da musa Rosangela, da Irmãe Erzita e da Minha Mãe Dona Eugênia coberta de ouro e prata.

O que você não dispensa no inverno?

O verão. Quem gosta de frio é cerveja estupidamente quente.

O que você não dispensa em qualquer estação do ano? Leitura, conversa fiada, namorança, natureza, canto dos pássaros, o luar de Itararé.

O que é muito bom fazer sozinho? Procurar calma pra se coçar.

Uma música para ouvir hoje: Taiguara, Vandré, Caetano, Elis, Beatles, fados, muitos blues instrumentais e renca de Bossa Nova por atacado.

Um livro na estante: Cem Anos de Solidão, Gabriel Garcia Marques.

Um filme para não esquecer: Muito Além do Jardim, Os Dez Mandamentos, Lawrence na Arábia, todos os do Woody Allen e Glauber Rocha e ainda todos com a minha artista predileta, a Mia Farrow.

Um retrato na parede: Meu Pai, Maestro Antenor Correa Leite, saudade, hoje nome de rua em Itararé, o que muito nos honra e emociona.

Um lugar para iniciar o fim de semana: Um avião aterrissando em algum lugar do passado, ou… um boteco de Itararé e um bom papo entre conterrâneos escritores, poetas, músicos, pintores, retratistas, cantores, pescadores, inventores do inexistente, proseadores etílicos e mentirosos…

O jantar no sábado: Em casa, em Itararé ou Sampa, com a Musa Rosangela dando o cardápio com açúcar e com afeto, sem perder a ternura jamais. Isso é que é: Itararé! Já pensou que demais?

O almoço de domingo: Sem hora, sem programa, livro e música enquanto espero… mas, de preferência, beira de rio, cerveja e churrasco.

Uma receita de estimação: Arroz, virado de feijão com couve, bife acebolado, ovo-estrela frito, salada de alface com tomate, pepino, rúcula, azeitona, ervilha, alho-porró, cebola, ervas finas, palmito e alcaparra.

Uma sobremesa: Doce de abóbora com coco e sem cravo.

Saudades de um sábado qualquer: O acordar, ainda criança, eu era puro, todos vivos, Itararé da rua 24 de outubro cor-de-rosa, o pai solando Abismo de Rosas no acordeão vermelho. Ninguém estava morto.

Uma viagem: Bombinhas, Santa Catarina. Lindo o veraneio lá

Noite de domingo, o que lhe parece? Preguiça pegajosa, ressaca volumosa, música e prosa, Rosangela maravilhosa, tudo verso e glosa.

Há a perspectiva de segunda-feira, o que lhe dá preguiça? A segunda-feira é santa. Começa a labuta que, ao final, vai dar num sabat alumbrado qualquer, depois, domingo Dia do Senhor, dia de sonhar, dia de limpar o carburador da alma sempre insatisfeita com sua sensibilidade sem lenço e sem documento.

O que assusta embaixo da cama: Nada. Acima e sobre todas as coisas, sonhos, esperanças, lutas, criações; resistência no amor e na dor, e, claro, a arte como libertação, porque a seco ninguém merece, ninguém segura o rojão, e, de perto ninguém é normal, por isso respeito muito minhas lágrimas.

Uma frase sobre Itararé:

“Itararé, Isso é que é!

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Delmiro T. Latz

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