Sambaqui, O Romance de Urda Alice Klueger

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Resenha:

Sambaqui, Importante Romance Historial de Urda Alice Klueger

“Quanto mais examino o universo e estudo os detalhes de sua arquitetura, mais indícios encontro de que ele devia saber, de alguma maneira, que estávamos chegando…”

Freeman Dyson

O Romance historial SAMBAQUI, Editora Hemisfério Sul, da já renomada romancista Urda Alice Klueger, tem essa coisa de você se apegar pela palavra e não largar mais, ir se entretendo na leitura, cativado, vencendo páginas, quando vê, você comeu pelas beiradas o livro de 245 páginas, edição 2008. Como era o continente brasileiro antes do “achamento” pelos colonizadores lusos? Bela pergunta. Pois a autora Urda Alice, renomada literata na linha de Proust, já tem seus dezoito livros, todos de qualidade, obras que, certamente já a apontam como a melhor escritora do sul, e uma das melhores do Brasil, na linha da literatura brasileira contemporânea. E lá se vão romances, crônicas, trabalhos infanto-juvenis de memórias, turísticos, narrativas de viagens, etc. Muito criativa, Urda Alice conta numa linguagem fluente e bonita que cativa, toca, toma você pela mão e leva suavemente para aquilo que dela você com muito prazer lê. Resultado de muitas releituras, entendimentos e pesquisas (cientificas, arqueológicas, em museus, universidades, bibliotecas), a Romancista Urda Alice arrisca com conhecimento de causa as contações, aventurando-se com conhecimento do oficio, situando-as entre aproximadamente 4000 antes de nossa época, e acerta em quase tudo; foi feliz pelo que imaginou com criatividade, e pela sequência narrativa de qualidade. Trabalhando a antiguidade no sul Catarinese, Urda Alice Klueger inventa a história de Jogu, Sanira, Calexo, entre outras personagens, com seus rituais, sonhos, trocas e feitiços, mais crendices, usos e costumes, ainda pescas, caças e interação dos silvícolas ameríndios com a natureza, entre os sambaquis da região; e de como poderia ter sido, como certamente foi, no seu entender, no seu feitio de criar, pesquisar, fazendo o leitor se interessar por essa viagem ao passado, retrazendo vestígios, veredas, ramificações, histórias alegres e tristes, sempre com muito gabarito e conteúdo narrativo. Mapeia, faz importantes intersecções do que ocorria a mesma época narrada no romance, na Ásia (entre os rios Tigre e Eufrates), África (Egito, Rio Nilo), Mediterrâneo (Grécia, Irlanda), América (Peru), Europa, etc, levando e trazendo as ligações das histórias nas sequências próprias do romance, intercalando a contação de como era na mesma época entre outros povos, etnias, civilizações. Muito importante isso, reforçando o caráter criativo e importante do romance que assim carrega em belas pinturas textuais, mesmo que, de passagem, um mesmo um certo enfoque de circunstancial documentário. Trabalho literário e histórico-arqueológico, tendo levado dez anos para ser terminado, a escritora nascida em Blumenau e muito bem conhecedora dos pagos sulistas, conta de tradições, envolvimentos ribeirinhos, a cultura toda própria da época e da região, e, tem peregrina alma viajosa, não foi difícil para ela imaginar com competência, viçando seu lado de “sentidora”, descrever com qualidade e riqueza de detalhes. Sim, os índios caçavam, pescavam, mas também amavam, tinham suas relações afetivas na tribo, na relações humanas de entendimento e convivência harmoniosa, uma visão bem sócio-comunitária também para a época. O Brasil antes de ser o Brasil. -Alberto Ellis dizia que “alguns indivíduos fazem profissão de contar historias, e andam de lugar em lugar recitando contos”. Pois Urda Alice Klueger vai fazendo récitas literais de suas crônicas, experiências de bagagens de viagens, e mesmo romanceando fatos, vidas, acontecências; vai dando o seu toque todo feminino e por isso mesmo lindo, romântico, pessoal, naquilo que com talento inventa de inventar. -O Romance Sambaqui é isso. Uma obra datada que, certamente servirá de pesquisa literária para conhecermos mais desse Brasil, e dos “nativos” que aqui já o habitavam antes da invasão colonizadora. Urda Alice colabora com isso. O livro tem, assim, sua importância de vezo histórico. Mais uma vez, portanto, a autora sabiamente acerta a mão no acabamento final de compreensão das evidências históricas, na condução do romance Sambaqui, que, por isso mesmo, vira um clássico da literatura brasileira.

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 Silas Correa Leite

E-mail: poesilas@terra.com.br Autor de O HOMEM QUE VIROU CERVEJA Giz Editorial, 2009, São Paulo

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Pirilâmpado, O Horror de Existir, num Poema de Silas Correa Leite

poetapassaro

 

Pirilâmpado

 “Ninguém pode pensar, sentir ou agir

 Senão a partir da própria alienação…”

 R. D. Laing

Se quero sobreviver preciso esquecer que meu corpo é uma carcaça.

Uso as palavras para recompor minha vida exangue.

Tento compreender o absurdo da existencialização.

Prezo a morte e leio escombros na angústia-vívere.

Tenho em mim a decadência-preço de Existir.

Não fui aparelhado espiritualmente para suportar a vida.

Minha infância pobre é o mundo que trago às costas como uma lesma com carcova.

Sou um renunciante à vida que respira a tristeza no caos.

 Amo os silêncios porque deles tiro filés de santas palavras.

Caibo em despertencimentos, desabandonos e desespelhos com a consciência saturada.

Minha palavra é a minha voz como o estertor de um vagido.

Existir dói e faço doer os engenhos e açudes das palavras.

Uso as esporas das palavras em verso e prosa para refazer a vida que me deram como uma sentença-castigo.

Se eu escrever ansiedades perdoem o inexato corte de pelica da dor em mim lavrada.

Não tenho fórmulas para escapar ileso e não estou impune.

Sou um bebedor e comedor de verbos feito um Pirilâmpado.

Dou ciência de mim aos efêmeros insensíveis como potes de vísceras.

Não me leiam se não querem se assustar de serem a si mesmos revelados como carcaças em espelhos turvos.

Sou por acaso aqui e ali uma espécie de rebrilux

. Os gemidos de noiteadeiro falam por mim, me descrevem.

Palavras me são remédios. Correm no meu sangue. Regurgito.

Como se adubos de palavras em ordinárias bateias de granizo.

Sou inventariante de angústias humanas, escondo-me em bibliotecas

E bebo de lanhos de meu próprio sangue letral

Envenenando-me da dura e triste carcaça Sobrevivencial.

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Silas Correa Leite, Itararé-SP

E-mail: poesilas@terra.com.br

Romance “A Dualidade” de Arine de Mello Jr

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Pequena Resenha Crítica:

 O Horror dos Miseráveis no Romance “A Dualidade” de Arine de Mello Jr.

“Que não temas amar sabendo

 Que embora a vida seja sombra e luz

Num palco de perplexidades Aqui estarei para que venhas(…)

 E se souberes querer que em mim

Tenhas pouso e pasto e sacrilégio”

Lia Luft

Lançado pela Editora Nelpa de São Paulo, o belo Romance “A Dualidade” do já consagrado escritor (poeta e ficcionista) de Ponta Porã-MS, Arine de Mello Jr, pelo próprio título da obra já se apresenta de alguma maneira: a luta do bem contra o mal nos seus mais plenos estágios, de espirituais a sobrenaturais, na cidade de Paraíso que, paradoxalmente ao que o próprio nome alude, é mais do que uma espécie assim de filial do inferno em tempos de dezelo público neoliberal, dívidas sociais impagas, injustiças criminosas e mesmo um quadro de abandono social histórico, numa usurpada geografia de contrastes sociais do norte do Brasil. A “luta” brava não só e exatamente pelas causas sociais ou agro-rurais, na conturbada região de Altamira; portanto não entre classes dominantes e miseráveis como foco, ou mesmo sem terras contra latifundiários num tema político, mas a miséria mesma em todo o seu triste horror, evocando a mente não os miseráveis de Paris, mas os miseráveis expropriados dessa nossa afrobrasilis latrina sulamérica católica com suas aberrações de toda ordem (ou desordem) entre a hiléia verde e o homem explorador ainda satanizado. Pra começo de conversa, um amargurado homem urbano, de uma grande cidade – com suas estátuas, igrejas e cofres – perdido, infeliz, à procura de si mesmo; peregrino a buscar sinais e sentido para viver, e sobreviver de algum modo, que vaga até dar-se errante em plagas de cafundós pra lá de onde o Judas perdeu o tênis all-star, um lugar perdido no mapa, mas em que há atribulações de seres como reses tangidos com medo para o redil dos submissos, lugar que terrivelmente tem a sua historicidade degradante toda própria, onde exploradores do povo estão impunes, onde as forças do mal convergem para uma hecatombe, onde não se sabe quem é bandido e quem é autoridade constituída, e onde, ainda por cima de tudo, como pano de fundo por assim dizer, descontroladas forças sobrenaturais se juntam para criar uma espécie de apocalipse moreno-tropical como sinal de começo do fim do mundo. O autor vai longe, tem imaginação, carrega nas tintas, pintando o pré-caos. Numa impressionante narrativa realista, onde o personagem principal como que, se atendesse a um chamado espiritual de um tempo que já se perdeu nas dobras dimensionais do espaço, fugindo de si mesmo e querendo purgações de alguma maneira, como por uma estranha coincidência (muito além das fronteiras da alma); como uma profecia bíblica cai no olho do furacão de um local abandonado por Deus, e como numa batalha de miseráveis, em união pra lá de ecumênica junta-se a um pastor, um espírita, um católico, tudo isso entre matadores de aluguel impunes, jagunços, pervertidos, grileiros, ateus, loucos, garimpeiros, cegos, velhacos, ossadas e cadáveres, tentando enfrentar o que não sabe exatamente o que é e quem é, mas um verdadeiro legado do demo em vidas passadas e com cobranças num devir próximo, em terra de muito ouro e pouco pão, do nosso estilo mestiço-afrobrasilis de tantos renegados entregues à própria sorte, numa área perigosa de garimpo, local sem alma e sem lei, onde reina a arma branca ou uma valentia sobrevivencial, tudo figurado pela dona Morte. Vai por aí o belo romance. Arine de Mello Jr, já elogiado por um dos melhores poetas brasileiros de então, Ascendino Leite, que dele diz “(…)Autor que honra e enriquece nossa linguagem lírica de modo irresistível e une com a vida nossa à do nosso país e da nossa comunidade comprometida com os valores de uma expressão poética(…)”. Ou ainda elogiado pelo maior proseador brasileiro, Moacyr Scliar, que comenta dele: “O autor tem um excelente domínio da forma poética, muita sensibilidade, muita imaginação(…)”. Falando sério, com um handicap destes, o autor só poderia estrear muito bem como romancista numa ficção limpa, fluente. Logo de cara o romance “A Dualidade” se nos apresenta um prefácio edificante de Caio Porfirio Carneiro que apresenta o autor do livro: “O autor desce fundo no passado de Paraíso e descobre surpresas espantosas e espetaculares(…). Com uma disposição e sede de justiça, o personagem narrador enfrenta todas as tempestades e borrascas demoníacas(…). Paraíso é um sarcófago, um símbolo regional de alcance universal, entre o Bem e o Mal, entre Deus e o demônio em atmosfera lúdica(…). A busca da justiça social aos deserdados contra o poder dos que, lá em cima, acomodam-se com os cordéis do comando”. É isso. Com os cordéis da contação sob domínio, o autor delineia um teatro ora de absurdos, ora de incompletudes, ora de um adubo humano entre carcaças e sofridas acontecências ribeirinhas que o personagem narrador, como um herói de ocasião, veio cobrar, justiçar. Será o impossível? Arine de Mello Jr, Advogado, com passagem pela Administração Pública em sua aldeia natal, Ponta-Porã, MS, é já autor de 3 livros de poemas: Estes Momentos (2004), Outros Momentos (2005) e Reflexões dos Momentos (200&), todos lançados pela Scortecci Editora de São Paulo. Vargas Llosa dizia: Escrever é uma obrigação para nos dar uma apaziguação existencial”. A busca do personagem principal é a busca também do autor como testemunho de um tempo, seu tempo, nosso tenebroso tempo? O autor trabalha a tez chã de uma área em conflitos, narra os desacertos dos miseráveis que bem retrata em preto e pranto, o horror da própria miserabilidade social, rituais demoníacos, seres doentes, mistérios, erranças, encarnações datadas, e ainda, aqui e ali, poético e um filosófico prisma: “Onde está a inteligência humana?(…). Onde está o lado bom da vida que é o amor? Na globalização dos mercados? Nos preços dos remédios? Nas sementes modificadas dos alimentos?(…) Nas guerras, nas armas sofisticadas?(…) A compaixão de Deus está nesse inferno que ele criou para separar o o joio do trigo(…) Li nomes naqueles corações de vidro(…)” É isso, Arine de Mello Jr conta do joio e do trigo, quando não estão os dois num só – ah a espécie humana tão desumana – uma espécie assim de “troios” humanos, pseudo-humanos. O horror da miserabilidade e desesperança. Talentoso, no entanto, lidando com um tema arenoso, o autor não cai na falácia panfletária, mostra todo seu caldo cultural, sua inteligência criativa, narra na primeira pessoa a vivificação letral dos fatos. O livro de cara custa a engrenar, fica algo suburbano, de uma altura pra frente, situado o conflito emergente, corre a corrente narrativa com garbo, é difícil de largar até chegar aos mistérios, contudências e final; você quer saber, quer continuar, tal a historiação entrando literalmente nas entranhas das almas sucumbidas pelo caos, pela maldade humana, pelos podres poderes de áreas periféricas desse Brazyl S/A; o espectro horrendo do devir que se afigura trágico, as injustiças sociais e o risco de uma desgraça mundial a partir daquele lugar perdido no tempo e no espaço, como se um filme se passando na sua cabeça de leitor cativado ao ler e “ver” as cores das imagens correndo. “A Dualidade” é com todas as letras, o próprio eixo do romance, o leitmotiv; o núcleo em toda a construção literária de fio a pavio. Ganha quem gosta de leitura de qualidade onde o mal e o bem se confrontam e, bem ou mal, todos saem perdendo, porque o custo vem da derrama de lágrimas e sangue. Mas, afinal, é Deus ou o diabo que mora nos desfechos?. Leia o livro. Você vai adorar. Faz valer a pena conhecer um escritor de gabarito.

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Silas Correa Leite – Santa Itararé das Letras, SP, Brasil – Teórico da Educação, Jornalista Comunitário, Conselheiro em Direitos Humanos E-mail: poesilas@terra.com.br Site: http://www.campodetrigocomcorvos.zip.net Autor de O HOMEM QUE VIROU CERVEJA, Crônicas Hilárias de um Poeta Boêmio, Giz Editorial, SP

Assim Escrevem os Itarareenses: Maria Ap. S. Coquemala na Primeira Antologia de Prosa de Itararé

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Antologia de Prosa de Itararé: Maria Apparecida S. Coquemala

-De todos os autores consagrados que constam na antologia ASSIM ESCREVEM OS ITARAREENSES, a ser lançada dia 11 de outubro, no Salão Real do CAF, com um forfé de primeira grandeza, na verdade, quem eu menos conhecia, por incrível que possa parecer, era a Mestra Coquemala. Os demais artistas, ou eram super-amigos, ou eram grandes amigos conterrâneos, ou eu conhecia de vista, por ouvir dizer ou mesmo de nome, por familiares, ancestrais, ou ainda por intermédio de canais da web que em suas infovias agregam saudades e acolhimentos. Para não dizer do Mestre Jorge Chuéri, claro, que esse é pai-patrono, referencial, conhecendo-o desde os 11 anos, quando me aconselhava: Estude… leia… trabalhe. Depois, estude muito, leia muito, vá para São Paulo… A Mestra Coquemala foi, aqui e ali, trocas de contatos iniciais, depois, via e-mail, quando vi, tava feita a grande amizade, de lastro, depois, finalmente, a bela parceria que redunda agora em mais um livro para a Brita-Biblioteca Real de Itararé. Porque a mestra em literatura Maria Coquemala é gente fina, expert e especialista na área, sempre solícita, verdadeira, sensível – adora o Mestre Jorge Chuéri como eu, o que é um dom-reconhecimento – e assim me ajudou muito, dando dicas, alertando, além, claro, do alto astral, ótimo humor, bom bate papo em sintonias literárias. É talentosa de somar, de edificar, além de ficcionista de primeira grandeza, com vários prêmios até no exterior, portanto sua participação com contos logo de cara com qualidade dignifica a Primeira Antologia de Prosa de Itararé. Cada autor, no conjunto do livro, tem a sua toda especial peculiaridade participativa, dos mais novos aos renomados, cada um com estilo todo próprio, todo seu, e a Maria Apparecida S. Coquemala tem uma ficção brilhante que, claro, concedeu um toque de maestria ao livro ASSIM ECSREVEM OS ITARAREEENSES. Conhecê-la e sabê-la via e-mails, depois pessoalmente em algumas visitas, foi um agrado que muito me ajudou, ficando até esta croniqueta como um mimo de respeitoso afeto pra ela, esposo e familiares. Sem ela, pilar da obra, não teríamos a edição do livro. Paciente, justa, solícita, intermediadora, aprendi muito e quando tive que ceder para que tudo fluísse em bons acertos e ótimos arranjos literários, foi vitória dela. Além da minha fama de encrenqueiro, briguento, São Paulo ainda me fez mais determinado e turrão – eu não venceria aqui se fosse um frouxo – então, nas lidas com Itararé em que prevalecem ainda considerações e somas, fui, portanto, premiado com o, digamos, convívio virtual dela. Espero que não seja o único trabalho em parceria, esperamos já para o ano vindouro criarmos uma outra linha de trabalho literário, e ela, a Mestra Coquemala, será sempre esse farol que me norteou e me deu acertos fundamentais nas tratativas em Itararé e por Itararé, porque, afinal é Itararé que vale, por essas e outras lidas culturais, sempre haverá Itararé. Obrigado Mestra. Quando tivermos o livro em mãos – ah a emoção que espera por todos nós! – cada escritor será irmão ali naquele conjunto de escritos e iluminuras, numa obra que irá para história, parte cultural sim, das festanças de aniversário dessa nossa Santa Itararé das Artes, para o memorial daqueles que criaram na terra-mãe que amamos tanto. Capa, orelhas, tudo, será sangue, suor, lágrimas, tempos passados e tempos presentes, momentos maviosos, informações, acolhimentos, somas, mais o afinco da Maria Apparecida S. Coquemala dando uma força, sendo sempre de enorme valia. Aprendi muito com o jeito cândido dela. Como deixei Itararé mas Itararé não me deixou, nunca rompi o cordão umbilical com minha Cidade-Poema, a Maria Apparecida S. Coquemala reforçou esse vínculo, estimulou esse grande amor pelas origens, assedimentou relações e ganhamos todos.

Por essas e outras, porque hoje é sábado,

-A Bença Mestra Maria Coquemala!. Longa vida!

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 Sampa, Agosto/Setembro 2009

Poetinha Silas Correa Leite E-mail: poesilas@terra.com.br Blogue http://www.portas-lapsos.zip.net

Cruzeiro do Sul, Romance de Urda Alice Klueger

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Pequena Resenha Crítica

Romance “Cruzeiro do Sul” de Urda Alice Klueger:

A Saga Historial de Imigrantes da Metrópole e de Ameríndios na Formação do Brasil Sulista

Para os navegantes com desejo de vento

A memória é um ponto de partida”

Eduardo Galeano

Quando você toma para o entretenimento ler, de um romance historial de 400 páginas, como o belo livro CRUZEIRO DO SUL da sul-catarinense Urda Alice Klueger, você fica desde logo atiçado para a contenteza do deleite de um prazer de leitura a partir de uma obra literalmente de peso. Em se tratando de Urda Alice Klueger então, como o handicap todo dela, fina flor da chamada literatura brasileira contemporânea, você logo afina o seu voraz lado ledor com a harmonia salutar da preciosíssima escrita de gabarito dela. Especialista em história, Urda Alice é ainda mais, já autora de quatorze obras de alto nível.

 

O belo romance Cruzeiro do Sul, Editora Hemisfério Sul Ltda, dá um gostoso sentimento de leitura com prazer, entrecortado com alguma ideia aqui e ali de volta às raízes, de volta as origens, quaisquer que sejam elas, num mesmo encantamento, e eu, não por acaso, um pé vermelho do sul criado em Santa Itararé das Artes, vesti-me de arrebatamentos, e de alguma maneira senti-me em casa. E vieram-me a mente as apreendências dos primeiros livros que li, todos de Érico Veríssimo também contando dos pagos sulinos, de igual feitio encantador.

 

George H. Lewis diz que “ assim como os pássaros tem asas, o homem tem língua”. Olha a história oral e o lado memorialista atiçado. Caetano cantou da mátria língua pátria. Lendo o romance Cruzeiro do Sul, você envereda pelos capítulos todos (e pode lê-los ao acaso, de que forma quiser), e quando vê está se derretendo todo pela gostosura do bem contar, do bem narrar, uma precisa contação que seduz, alicerçando continuações e paisagem que assomam à mente com desenvoltura. Escrever é tocar corações e mentes?

 

A fundação cultural sulista ali está inteira, plena, embonitada, paginando fatos, invencionices. Dos imigrantes da corte portuguesa em terras brasilis (ah esses brasis gerais); dos chamados silvícolas e ainda um lado antropológico no letral personalizando mestiços, mamelucos, autoridades religiosas, desde os campos gerais, da Vila de São Paulo aos pinheirais de Curitiba, entrando em terras náuticas de Santa Catarina, e assim na leitura vamo-nos, tomados pelo prazer de, bebendo as andanças e paisagens, vilas, acontecências felizes ou trágicas, cada uma das partes como o inédito destino dando sentenças ou salvando sonhos de povoamentos e colonização, entre descobertas e vivificações sociais.

 

“A gente se esforça com paixão, durante anos, para imitar o que é, e mal chega a dar a entender a olhos experimentados o que tentou fazer”, disse Guy de Maupassant. Pois essa máxima não vale para Urda Alice. Você bebe do mundo ficcional dela, e vê ali a historiadora séria embonitando laços de ternura; vê a pesquisadora datando o confeito do historial todo com maestria, o que na obra Cruzeiro do Sul mais se afirma em Montaigne: “Só um leitor inteligente é capaz de descobrir nos escritos alheios coisas outras e lhes emprestar sentidos e aspectos mais ricos”. É isso: Urda Alice está mais para Proust e isso é um elogio e tanto que ela faz por merecer-se.

 

O sofrimento que vem de Deus (diz um personagem do livro). O sofrimento que vem do homem (explorando seu semelhante), o que Urda Alice tipifica muito bem no que abre ao contar, confirmando a antológica frase poética de Carlos Drummond de Andrade que diz que “toda história é remorso”.

 

Urda Alice não julga, apenas conta as versões, os enfoques, nomeia tim-tim por tim-tim, sempre tendo como pano de fundo a fundação desse verdadeiro sul-brasilis de tantas diásporas, de tanto fugitivos de guerras, de tantos aventureiros, piratas, e, sim, exploradores de toda sorte, inclusive da fé e da confiança alheia. Tempos em que a água bebia a onça.

 

Urda Alice Klueger escreve de um jeito que parece que tudo aquilo é conosco, como se, sim, ela fosse mesmo parte da familia (familia Brasil), como se estivéssemos ao redor de uma fogueira assando pinhões, ao redor de um fogão de vermelhão com tubérculos, mates e panelas com picumãs do tempo agarrado nelas, lampiões acesos nas cabeças, religando conversas fiadas, causos pra boi dormir, mais o encantamento de muito bem saber entreter com memórias passadas a limpo, entre o imaginado e o sentido, o pesquisado e o vivido, sempre a cândida criatividade dando pano pra manga, quero dizer, dando uma bela obra. 

 

Meninos portugueses da gema aqui aprendendo a serem guris, piás, curumins. Os exóticos estrangeiros entre os colonizadores tendo que sobreviver a todo custo entre pagãos de algum modo; o configuramento de viagens, empreitas e travessias em terras virgens sendo desbravadas por colonos sofridos em pé de guerra com a sobrevivência emergencial possível e necessária, de ocasião, e ainda curiosos, aventureiros entre tantos outros personagens que vão e vem, chegam e mudam, alteram o espaço, partem, correr atrás de prejuízos, ah dura sobrevivência, os personagens todos saltam aos olhos, verossímeis, sedutores, verdadeiros, reais.  Cativantes. Muito prazer de ler. Bonitezas.

 

Construções detalhadas. Roupas, pessoas, lugares, situações. Pinceladas de ocorrências que se sucedem e costuram o novelo de situações, entrelaçando, registrando os campos, como retratos de uma época que já se perdeu na névoa do longe, as agruras, os índios, as criações, as ilusões, prosopopéias, uma obra que é um verdadeiro achado, um suntuoso celeiro de matizes a comporem o corpo ficcional todo, entre linguagens bem colocadas, colheitas com detalhes, sentimentos aflorados, rudezas sobrevivenciais, e, ainda, tudo bem sortido no letral com garbo.

 

A personagem Isabel cativante. A história de Marixem como um achado. A igreja, os adensamentos, os povoados, lavouras, tudo contado como conhecimento que marca, toca, fica com a gente, fica bulindo com a imaginação de quem é de alguma sentido atrelado à escrita-leitura.

 

Livro bom é assim. Há trechos de verdadeira prosa poética com você se sentindo dentro de você, feito um quintal, um bosque, um lugar uma familia, uma amizade, um reaparelhamento interior de revisitança em encantamento.

 

“Getulio era mais imaginoso, mais sonhador, e era ele quem inventava a maioria das brincadeiras novas. Eles eram crianças simples, sem livros de história, sem gravuras bonitas, sem brinquedos coloridos, mas se viravam. Áurea trazia de casa uma algaravia de historias que iam desde a magia dos duendes e das fadas alemãs até as cruéis histórias da Moura Torta, aquela personagem emigrada de Portugal para o litoral de Santa Catarina já fazia tempo e que continuava forte e viva na tradição oral(…)” Pg. 371

 

Cruzeiro do Sul é um romance grande também em qualidade. Daria um belo filme, minissérie ou até uma baita novela, Viegas Fernandes da Costa, Escritor e Historiador na orelha da obra afirma o que eu assino embaixo: “Obra de maturidade da autora (Cruzeiro do Sul), narra a saga de um povo construído na diversidade étnica e na luta com as adversidades(…). Com profundo lirismo e humanismo, Urda nos tece o mural de um povo plural(…) mas também nos faz acreditar na força do ser humano quando carrega em si o sonho da vida(…)”.

 

Ernest Hemingway dizia que o mundo quebrava as pessoas, mas elas ficavam mais fortes nos lugares onde elas foram quebradas. Deve ser por isso que o sul do Brasil, desbravado e erguido galhardia por imigrantes e filhos destes, é a região mais desenvolvida sócio-culturalmente do Brasil.

 

O romance Cruzeiro do Sul tem esse registro pari-passu das andanças de povos de outras terras, começando depois de 1500 e terminando bem depois de 1985. Com um final (que pode ser continuação de) que é triste, amargo, mas que também é fim de algum tempo para recomeço de uma outra nova época ou geração, tempo de mudanças, talvez uma outra contação futural, que a labuta continua e nem sempre há final feliz na vida daqueles que se aventuram por outras plagas, com o espírito lusonauta de conhecer, construir, deixar o sal da lágrima de Portugal em berços explêndidos de muitas madeiras, minérios, águas, sementes e açúcares.

 

Os sofrimentos que fizeram o Brasil, o sofrimento que fazem hoje, muito além do sul do Brasil com os excluídos sociais, os sem teto, sem terra, sem amor, os minhocos; filhos da terra sonhando uma Pasárgada, uma Onira, um Eldorado que parece estar mesmo dentro de cada um de nós, como uma história de sedução e conquista.

 

O maravilhoso mundo mágico da escrita de Urda Alice, dando uma idéia de como pode ter sido a colonização do Brasil florão da américa católica, com sua colonização de exploração, com sua mistura de ranças, crenças, mas mantendo a língua-mestra com a qual Urda Alice Klueger criou um clássico.

 

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Silas Correa Leite – Santa Itararé das Artes, São Paulo, Brasil

Teórico da Educação, Jornalista Comunitário, Conselheiro em Direitos Humanos – E-mail: poesilas@erra.com.br

Blogue: www.portas-lapsos.zip.net

Autor entre outros de O HOMEM QUE VIROU CERVEJA, Crônicas Hilárias de Um Poeta Boêmio, Prêmio Valdeck Almeida de Jesus, Salvador, Bahia, 2009, Giz Editorial, no prelo

 

BOX:

 

CRUZEIRO DO SUL, Romance

Urda Alice Klueger – urda@flynet.com.br

Editora Hemisfério Sul, Santa Catarina